Opinião - Ary Cavalcante

Data:19/5/2010 - Hora:21:11


A democracia e suas distorções


A democracia, embora sendo uma das mais perfeitas criações do homem, tem conceito dúbio. Para que a democracia seja plena, é necessário que as pessoas sejam esclarecidas, tenham massa crítica, dessa forma não permitindo que a práxis contraponha-se à fundamentação teórica, levando muitas vezes o povo a comprar gato por lebre.

Essas distorções ocorrem desde os seus primórdios, na Grécia antiga. A civilização helênica, embora sendo o berço da democracia, mantinha a base de sua sociedade escravizada. Nas democracias modernas, essa contradição da teoria com a práxis é mais freqüente em nações pouco evoluídas intelectualmente, via de regra com abismo social profundo, como é o caso da Nação brasileira.

O poder, apesar de legítimo enquanto emanado do povo, não é exercido em benefício deste. O sistema exclui as forças populares. Dessa forma, os interesses do povo têm pouco ou quase nenhum peso na determinação das políticas de governo. Essa dicotomia perversa - "poder emanado da maioria em favor de minorias privilegiadas" - acontece porque as massas populares são politicamente alienadas.

O processo de alienação, somado à pobreza das pessoas, as torna vulneráveis à manipulação pelo clientelismo, levando-as a legitimar pelas urnas um sistema que solapa a dignidade; enfim, solapa a soberania do cidadão. Nessas circunstâncias, o processo político é determinado muito mais por conotações emocionais do que racionais.

Nesse aspecto, o ideário democrático passa a ser concebido de forma distorcida, obscura, embaçado por interesses nos quais nem sempre se pode distinguir quando seu conteúdo é fruto do exercício político da cidadania ou, predominantemente, orientado por critérios de conveniência. Em geral, são critérios sempre ditados pelos que detêm o poder econômico, que tende, invariavelmente, a corromper ou induzir a valores espúrios aos interesses da população. Mesmo assim, não existe forma mais própria ao exercício do poder do que a democracia. Ao povo cabe eleger ou banir seus representantes.

A humanidade tem incontáveis exemplos dos perigos dessas distorções, que geram "verdades" e "ídolos". O ideário nazi-facista, por exemplo, quando buscou justificar pela teoria da metafísica geográfica a supremacia e o direito natural da raça ariana em promover a paz mundial através de sua dominação, gerou o holocausto, uma das maiores barbáries da história humana.
Ideário tão perverso quanto o nazismo é a concepção de democracia dos Estados Unidos. Esta concepção agride de forma covarde a soberania dos países tidos como de Terceiro Mundo. Por isso, que essa Nação, cujo governo se julga como defensor da liberdade e da democracia tenta justificar suas barbáries, a pretexto de defesa das liberdades democráticas. Entretanto, esse direito é concebido pela teoria do Destino Manifesto, pelo qual os norte-americanos se acham no direito de interferir nos governos de qualquer nação do mundo, quando o regime de governo se torna uma ameaça aos seus interesses econômicos, inescrupulosamente confundidos com liberdades democráticas.

Esse tipo de concepção nada mais é que um acinte à autodeterminação dos povos, uma tremenda aberração do poder, cuja vítima sempre será a nação mais fraca. No nosso universo político, essas distorções infelizmente também acontecem de forma semelhantemente covarde , uma vez que atinge todos os níveis da administração pública.

Parlamentares de todas as esferas, dos governos municipais ao presidente da República, ministros de Estados, juízes, desembargadores já não se preocupam mais em zelar pela ética, moralidade e muito menos pela dignidade própria. Quando isso acontece, deterioram-se mais ainda os princípios morais da sociedade.

As cenas de prisões que assistimos diariamente pela mídia, cujos protagonistas inicia-se pelos políticos de todos os níveis e passando por delegados da Polícia (Federal, Civil), juízes e até desembargadores são muito forte para acreditarmos em quem faz e executas as leis neste país, mas, refletem perfeitamente as distorções sociais, políticas e administrativa do nosso Brasil.



Ary Cavalcante
Profissão: Agrônomo
E-mail: ary.cavalcante@hotmail.com


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